A delícia e a dor de sermos pioneiras


Outro dia eu estava em casa, fazendo algo aleatório, e me veio na cabeça: eu, junto com as minhas irmãs, faço parte da primeira geração de mulheres da minha família que se formaram na faculdade. Minha mãe não completou o Ensino Superior e essa é uma grande dor que ela vive e sempre repete. Que benção poder ter estudado, ainda mais em uma universidade particular, com toda a infraestrutura e qualidade. Por outro lado, que peso carregar nas costas (de forma consciente ou inconsciente) as expectativas de quem projeta seus sonhos em mim, mesmo sem querer. Eu não penso a mesma coisa que minha mãe (e meu pai, que também não se formou) sobre cursar uma graduação – e principalmente o que acontece depois da formatura. E onde fica o medo de desapontar X a vontade de seguir nosso coração? É a delícia e a dor de sermos pioneiras.


Eu faço parte da primeira geração das mulheres da minha família que trabalha fora. Que tem um emprego. Que não precisa de homem para se sustentar, em outras palavras. Minha mãe ficou a vida toda cuidando das filhas, do marido e da casa, depois do casamento. Para mim e minhas irmãs, casamento funciona de outro jeito. É uma benção poder escolher um parceiro “apenas” por amor, porque eu sei que me viro sozinha. No entanto, até que ponto a busca por independência financeira e emocional a qualquer custo nos aprisiona, em vez de nos libertar? “VOCÊS NUNCA PODEM DEPENDER DE HOMEM”, bradava – e ainda brada – minha mãe. Sim, concordo plenamente. É uma delícia ter o meu próprio dinheiro! Mas o quanto isso não me afastou dos homens? Não só do lado “ruim”, mas do lado bom deles? O quanto isso me afasta da minha própria energia feminina, que é mais passiva do que ativa? O quanto afeta minhas prioridades?


Eu faço parte da primeira geração das mulheres da minha família que pode declarar, em alto e bom som, que é feminista. Que descobriu e leva no vocabulário palavras como patriarcado e machismo. Mas de qual forma eu estou lutando? São com as “armas” que realmente ressoam com o meu coração? Ou me fazem apenas seguir na energia do patriarcado – acusação, raiva, poder sobre o outro? Eu também faço parte da primeira geração das mulheres da minha família que pode descobrir e explorar a sua sexualidade com muito mais liberdade! Mas também, novamente, até que ponto não vamos para o extremo, entrando novamente na energia do patriarcado mesmo sem perceber, procurando uma liberdade muito mais física do que aquela que verdadeiramente desejamos, a da alma?


Vivemos tempos maravilhosos, mas também desafiadores. Com certeza, são grandes oportunidades de resgate da nossa força feminina. Em nível micro e macro. Porém, é um período que requer de nós uma reflexão constante de como estamos agindo. Também requer de nós um amor-próprio constante, porque vamos errar ainda muitas e muitas vezes. Então, precisamos nos perdoar. Como eu costumo dizer: é um processo. Um dia de cada vez, mas sempre em frente, em busca de nossa essência e sua expressão. Não é fácil sermos pioneiras, seja em qual área for. Mas vale a pena. Vale cada descoberta, cada sopro de liberdade, cada lágrima de cura. Cada dor e cada delícia.


Exercício Sagrado: Reflita em quais aspectos você é pioneira na sua família. Quais são os mais desafiadores? Quais são os menos desafiadores? Qual deles é o seu foco atual?

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